terça-feira, novembro 22, 2005

Convidados ( Post by Paula Brito )

25 de Novembro
Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres
“Foi em Novembro de 1999 que a Assembleia-geral da ONU proclamou o dia 25 desse mês como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.
Este dia foi escolhido em homenagem às irmãs Mirabal, 3 mulheres que foram brutalmente assassinadas, neste mesmo dia no ano de 1961, pela ditadura de Trujillo, na Republica Dominicana."

Olá! Começo por agradecer o convite que me foi feito para aqui “colar” este post, convite que, tenho de o admitir, deriva mais da gentileza “dono” do que da minha competência nesta área.

Competência fica assim claro que não tenho. Trabalho na Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres…só isso…Interesse sim, sem qualquer dúvida. Aliás, como seria possível ser cidadã e não me interessar pela violência doméstica, nomeadamente contra as mulheres, se – como diz o II Plano Nacional contra a Violência – a violência contra as mulheres no espaço doméstico é a maior causa de morte e invalidez entre mulheres dos 16 aos 44 anos, ultrapassando o cancro, os acidentes de viação e até a guerra ?

Dito ou lido assim arrepia, não é verdade? Mas o pior é que, enquanto temos consciência do flagelo do cancro, começamos a tê-la da sinistralidade rodoviária, e todos os dias ouvimos falar das diversas guerras que lavram no Mundo – embora, infelizmente, sejamos mais sensíveis a uma vítimas que outras, baseados em grande parte na sua maior proximidade connosco – não parecemos ter a mesma consciência da violência doméstica.

Como se fosse uma coisa de feministas paradas no tempo. Algo que já não acontece nos países desenvolvidos – ou que, a acontecer, só acontece aos outros. E neste “outros” estão todas as discriminações, económica, social, étnica, quiçá religiosa.

O estereótipo é que o homem que bate, o homem que maltrata, é alcoólico, de preferência (toxicodependente também fica bem), pobre, ignorante, e a mulher é economicamente desfavorecida, vitima ela também de toxicodependência e incapaz de abandonar o lar familiar por causa das dificuldades económicas. E enquanto nós acreditarmos nisto estamos, por um lado, a ignorar uma parte da realidade, que é que a violência doméstica é transversal à sociedade, e por outro a passar uma mensagem terrível a muitas mulheres maltratadas, porque estamos a dizer-lhes: “Se não correspondem ao estereótipo, se são cultas, economicamente independentes, capazes, então, porque é que vivem com uma pessoa que maltrata?”.

E, no entanto… no entanto vamos ouvindo histórias de estudantes – ou seja, mulheres jovens, modernas, cultas, evoluídas, socialmente inseridas – a quem os namorados agridem, vamos encontrando nos empregos mulheres com uma terrível tendência para chocar de caras com portas abertas ou cair de escadas, vamos ouvindo gritos nos nossos prédios mal insonorizados – mas não ligamos, ou fingimos educadamente não dar por isso, porque não corresponde ao estereotipo da pobre mulher batida, incapaz de resistência pela sua dependência económica.

Talvez porque muitas mulheres acreditam ainda que o companheiro lhes bate porque gosta delas, como se o bater fosse um sinal de amor. Talvez porque, ao bater-se, se estabelece uma relação e, enquanto à mulher se continue a exigir, por mais capaz que seja em outras áreas, por melhor profissional ou cidadã que seja, que seja também namorada entusiasta, esposa amantíssima e mãe competentíssima, uma mulher espancada existe, enquanto que uma mulher sem relação parece não existir, porque a sociedade está ainda organizada de modo a não lhe ser dada visibilidade na política, na vida empresarial, na vida intelectual. (E, se me permitem o aparte, quando se tornam demasiado visíveis pela sua capacidade de trabalho – como nas universidades – logo surgem vozes a pensar em quotas para proteger os pobres machos em perda de protagonismo… )

Daí de dias como este. Para nos obrigar a pensar!

9 comentários:

Elias disse...

Tudo isto é a realidade.
Não posso expressar suficientemente o repudio que tenho por homens que batem em mulheres, homens que se julgam mais "machos" por faze-lo ou simplesmente prq lhes da prazer.Realmente existem milhares de desculpas para as mulheres deixarem que isso aconteca , até a classica "Mas eu amo-o" , se o amor é serem agredidas, então não sei qual será noção de carinho, companheirismo e amizade ,para essas mulheres.
Não nos podemos esquecer no entanto , que hoje em dia já se começa a ouvir falar em violência doméstica contra os homens tb.

Vera disse...

Pois, isto de violência doméstica tem mt que se lhe diga!!
Eu tenho uma pessoa de familia (uma prima) que sofre desse tipo de agressões, por vezes nem quero ouvir o comentar em casa sobre o assunto, pois fico de tal maneira revoltada, que fico mesmo fora de mim!! E por isso prefiro nem saber o que acontece!!
Pois custa-me a entender e perceber como se vive assim!!
Mas ali a violência acontece e vai continuar a acontecer, porque existem dividas a pagar e que sem o dinheiro dele a minha prima não conseguirá paga-las!!
Enfim, problemas que nos podem tocar a cada um de nós, mais de perto ou mais de longe!!
Aqui neste caso a violência é a tipica, mas é verdade que cada vez mais se sabe de violência de mulheres para com os homens!!
Espero que cada um de nós á sua maneira consiga que este "male" do mundo acabe!!!

Fafa disse...

Meus amigos... tudo isto é muito bonito, mas não passam de TEORIAS!
Escreve-se muito, fala-se muito sobre o assunto, mas a verdade é que SE FAZ MUITO POUCO!
Vivemos numa sociedade encurralada em clichés, em falsas-verdades, em preconceitos... vivemos de costas voltadas para a realidade e mesmo assim adoramos escrever e falar sobre aquilo que não conhecemos - vamos ouvindo umas "bocas" e algumas teorias, mas não somos conhecedores de quase NADA!
É reconfortante saber que há comissões de acompanhamento para mulheres, que há dias internacionais contra a violência doméstica, que há uma infinidade de "pacotes" disponíveis para nos lembrar a toda a hora que existe violência no mundo...
Mas a divulgação deste flagelo não apaga as marcas, não atenua a dor, não sara as feridas nem disfarça as cicatrizes!
O sofrimento não nos abandona... a dor acompanha-nos para sempre, a vergonha torna-se nossa companheira para a vida... e quanto a isso não há quem nos valha!
O que se pode fazer? Não sei!
Talvez se possa não discriminar... não generalizar... não transformar a dor e o sofrimento de tanta gente em estatísticas e em números!
A violência é uma realidade... tentemos parar de fingir que não é nada connosco, porque nunca se sabe quando nos pode bater à porta.

Lala disse...

A violência, exercer por meio de força a nossa vontade sobre alguém que está em condições inferiores, é sempre repugnante. Seja sobre mulheres, seja sobre homens, velhos ou crianças. Infelizmente existe. Infelizmente existiu sempre. E nem sempre é fisica, nem sempre deixa marcas visiveis. Por vezes deixa feridas tão fundas, tão escondidas que matam lentamente que as sente sem que o mundo em redor se apreceba.
Quanto aos violentadores, não acredito que se possa fazer muita coisa. Uma pessoa que violenta outra é uma pessoa instável e desiquilibrada, que dificilmente será chamada à razão e consciencializada. Pelos agredidos podemos tentar. Podemos mostrar-lhes o respeito que merecem e que devem a si proprios. Podemos tentar que acreditem que merecem outra sorte. Mas seremos bem sucedidos?
Ou estamos de mãos atadas?
Como mão, posso fazer tudo, e é essa a minha obrigação. Ensinar aos meus filhos que não são obrigados a amar toda a gente mas que a todos devem respeito, que exercer força sobre os mais fracos não os torna destemidos mas cobardes, que muita gente pensará e agirá de forma diferente da deles mas não lhes dá o direito de os querer fazer ser de outra maneira. Que humilhar outra pessoa não os fará sentir superiores, que pisar alguem não os tornará maiores, que magoar não curará nunca as suas proprias dores.
E que se acreditarem em tudo isto, se se regerem vida fora pelos principios da justiça e do respeito pelo outro, jamais sentirão necessidade de agredirem quem quer que seja, seja qual for o motivo.
Da mesma forma espero que eles entendam que ninguem terá direito de os agredir a eles. Que jamais se deverão maltratar, em nome do que quer que seja.
Se eles crescerem para ser adultos assim, então esse será o melhor legado que posso deixar à esperança de uma humanidade melhor.
A sociedade começa em casa, na casa de cada um de nós.

Azrael Angel disse...

Bom texto... boas opiniões... mas as duvidas permanecem:

- " Essa violencia inclui BDSM?"
- "E levar com uma mama na testa?"

:D

lol brincadeira num tema sério ...

concordo com todas as opiniões e repudio tal situação ... não tenho nemhum caso na familia (penso eu de que... mas como todos sabemos, o silencio é o maior aliado do agressor)...

mas pronto sabemos que é uma realidade, e que infelizmente a lei também os protege demasiado ...

vamos voltar a dar uso aos pelourinhos ainda espealhados pela cidade? não me parece ...

Anónimo disse...

Acho que escreveram todos muito bem. E Lala...acho que tens uma visão óptima das coisas..porque quem por vezes é maltratado é o mais fraco...
Vamos então dar força,autoconfiança a essas pessoas.. e dizer-lhes que a vida sem maltratos existe.. e é bom lutar para o melhor!
As pessoas tÊm que descobrir o amor próprio...porque quem não quer ajuda ...não pode ser ajudado!
Muito fica por dizer... mas acho que no fundo todos percebemos que ainda há muito por fazer!
Angel

maria disse...

Os problemas de uma sociedade não podem ser dissociados do contexto social e psicológico inerente aos mesmos.
Assim sendo, não posso concordar com a Lala, quando diz:
1º- "Quanto aos violentadores, não acredito que se possa fazer muita coisa. Uma pessoa que violenta outra é uma pessoa instável e desequilibrada...". Se assim fosse, todo o meu trabalho e dos meus colegas (psicólogos) não teria razão de ser.
2º- "Pelos agredidos podemos tentar". Fica a ideia de que, desde que sejamos vítimas, passaremos a ter direito a uma tentativa...quando o nosso dever moral e social é FAZER.

Será que se eu tivesse nascido numa "casa de violentadores", teria direito a uma tentativa de reintegração na sociedade?

joana disse...

A violência no contexto familiar é, a grande maioria das vezes, um domínio masculino. Os estudos mostram que o principal alvo de violência doméstica em familias com filhos, são as crianças, principalmente crianças pequenas com menos de 6 anos. O segundo tipo de violência mais comum é a exercida pelos homens(normalmente maridos)sobre as mulheres.

Há quem diga mesmo, que a casa é o lugar mais perigoso da sociedade moderna porque é onde uma pessoa (em termos estatisticos) está mais sujeita à violência.

Porque é que normalmente e infelizmente se dá tão pouca importância, em termos práticos, à violência doméstica? Penso que por duas razões: uma delas é que há sempre um conj. de valores envolvidos; os laços familiares estão impregnados de emoções fortes que misturam frequentemente amor e ódio, que em casa são libertados de uma forma que nunca o seriam noutro espaço e potanto passam a ser encarados de forma secundária...muitas vezes incoscientemente.
Outra razão, é o facto de se tolerar, muitas vezes, um certo grau de violência na vida familiar.

Quando vivemos à partida, num seio familiar onde não existe violência, maus tratos, desiquilibrios sociais e psicológicos, em principio, tudo correrá pelo melhor, porque são, concerteza, transmitidas regras e valores éticos, de justiça, e sociais muito importantes para a nossa formação e equilibrio enquanto pessoas. Mas, tal como diz a Maria, e muito bem, e quando isso não acontece?

A ajuda a essas pessoas parte de cada um de nós, dos nossos actos, atitudes,regras de cidadânia e civismo, de uma palavra, uma atenção, um carinho.

Parafuso disse...

Então é hoje o grande Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, para isso acho que todos os maridos, namorados, companheiros, etc... deviam redobrar o carinho sobre a respectiva. Mas podem abusar :))))

E Paula os meus Parabéns pelo teu importante trabalho nesta área.